A inclinação universal do ser humano ao ikigai

Há, em todo ser humano, uma inclinação não apenas a viver, mas a apreender o valor do próprio viver. Essa inclinação brota da própria constituição da existência humana, na qual o ser não se perfaz enquanto simples permanência, antes reclama justificação.

Com efeito, o ser humano não se contenta em existir como os demais seres na natureza, que perseveram segundo leis fixas e sem questionamentos. Ele eleva-se acima do mero subsistir, voltando-se sobre o próprio fundamento de sua existência. Há nele uma inquietação originária, uma espécie de apelo silencioso, pelo qual busca algo que torne sua vida não apenas possível, mas digna, luminosa e justificável diante de si mesmo e do todo.

Ora, esse movimento interior não é contingente nem acidental. A orientação ao sentido manifesta-se de modo universal, ainda que sob formas diversas. Em cada cultura, em cada época, o homem exprime, com palavras e símbolos distintos, a mesma exigência radical, a saber, que sua vida não seja vazia, mas cheia de significado. E a própria diversidade das expressões, longe de enfraquecer essa evidência, a confirma com maior vigor, assim como a multiplicidade dos idiomas não refuta, antes atesta, a unidade da razão que neles se articula.

Note-se, porém, que tal realidade não se confina ao domínio da razão discursiva. Frequentemente, o ikigai irrompe primeiro como experiência viva, quase como um fulgor no interior da alma, pelo qual o homem reconhece, ainda que confusamente, que sua existência encontra eco no mundo. Somente depois a razão se aproxima, recolhe esse dado e procura vertê-lo em conceitos. Assim, o sentido não nasce da razão, mas a precede como evidência existencial que a razão deve honrar, acolher e esclarecer.

Ademais, essa vocação ao sentido não se restringe a um povo, a uma língua ou a uma época determinada. O fato desse movimento em busca de sentido ser nomeado de modos diversos, como ikigai entre os japoneses, eudaimonia entre os gregos e beatitudo na tradição latina, manifesta com maior clareza sua universalidade. Pois onde quer que haja homem, há também essa exigência incontornável de que a vida não seja fluxo cego, mas realidade que possa ser afirmada com convicção interior.

Portanto, deve-se concluir que o ikigai não é tão somente um simples conceito entre outros, mas a expressão de uma verdade mais profunda e perene. O homem é um ser ordenado a encontrar, reconhecer e habitar um sentido que torne sua existência plenamente realizável. Enquanto tal sentido permanece oculto, a vida se conserva incompleta, como potência que não alcançou seu ato. Porém, uma vez vislumbrado, ainda que por um instante, ele confere à existência um caráter quase triunfal, como se o próprio ato de viver se fizesse enfim digno de ser celebrado.